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Disputa por vaga premia qualificação

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Hoje em Dia
27  de Outubro de 2009


Disputa por vaga premia qualificação
Quem adiou a qualificação ainda pode aproveitar as oportunidades
Rogério Wagner Mendes - 25/10/2009 10:58

 
O mercado de trabalho começa a abrir uma janela de oportunidade com a recuperação da economia e as previsões otimistas para 2010. A geração de empregos formais, que vai fechar 2009 na casa de 1,1 milhão e, unanimidade entre especialistas e empresários, irá se acentuar no próximo ano, pode beirar uma situação de pleno emprego no Brasil, já com o temor de que a falta de mão de obra qualificada, hoje observada em setores como a construção civil e a indústria, se agrave e se generalize nos próximos meses.

Para o coordenador do Grupo de Trabalho e Renda do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Roberto Gonzalles, o momento favorece principalmente aquelas pessoas que tiveram e têm preocupação com a carreira e não abriram mão da qualificação profissional. “Estamos nos aproximando de um ano em que o país vai realmente gerar emprego. Do ponto de vista das pessoas, isso é uma corrida, onde sai na frente o trabalhador que buscou diferenciais”, avalia.
Mas mesmo quem adiou a qualificação ainda pode aproveitar as oportunidades. O pesquisador do Ipea aconselha as pessoas que querem entrar no mercado de trabalho a procurarem os institutos técnicos e se informarem sobre os setores que estão gerando emprego. Quem já está ou esteve no mercado de trabalho deve avaliar o futuro da carreira. Se tiver potencial, o melhor é investir em qualificações que tenham relação com a atividade desenvolvida. “Não adianta acumular cursos que não terão aplicação. Isso só faz a pessoa perder tempo, dinheiro e se sentir frustrada. O que garante emprego é uma formação dentro das oportunidades existentes no mercado”.

Mais de 25 mil vagas abertas

Os investimentos que o Governo federal vai realizar no setor de petróleo e gás, de 2010 a 2013, vão abrir 207 mil oportunidades de trabalho. A previsão é do próprio Governo, que, na tentativa de qualificar esse contingente, criou o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp). As empresas de tecnologia, por sua vez, trabalham com a previsão de que não conseguirão preencher 50 mil vagas até 2012, por falta de candidatos qualificados. Em Minas Gerais, o Sistema Nacional de Emprego (Sine) contabiliza mais de 25 mil vagas abertas por falta de pessoas com capacidade para preencher os requisitos estabelecidos pelas empresas.

As vagas que esperam preenchimento no Estado são mais de três vezes o total de postos de trabalho com carteira assinada abertos em setembro, também em Minas, que foi de 7.451, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. De acordo com a coordenadora do projeto Usina do Trabalho, da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), Lara Farah Valadares, o maior número de vagas em aberto está na indústria metalúrgica, na construção civil, no setor de telecomunicações e em empresas que prestam serviço para o mercado aeronáutico.

A demanda por mão de obra qualificada chegou a um ponto em que sete em cada dez participantes de cursos de qualificação que a Sedese oferece saem empregados. “As empresas nos procuram e dizem onde estão enfrentando dificuldades para preencher as vagas. E oferecemos cursos exatamente para qualificar esse trabalhador”, diz Lara.

O pesquisador Plínio Campos, da Fundação João Pinheiro (FJP) e um dos responsáveis pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), confirma o agravamento da falta de mão de obra qualificada no país e na região metropolitana.

Segundo ele, hoje a indústria está sendo obrigada a qualificar internamente as pessoas, para poder aumentar o quadro de trabalhadores e a produção. Plínio prevê que, em 2010, se as previsões para o crescimento da economia acima de 5% se concretizarem, muitos setores vão ver as dificuldades para contratar pessoas com a qualificação necessária se agravar.

“No início de 2008, antes da crise mundial, já existia uma discussão forte no Brasil sobre a falta de qualificação profissional. Com a retração da economia, essa questão foi deixada de lado. Agora, com a retomada do nível de atividade econômica, volta a preocupar”, diz Campos. Nesse cenário de forte demanda por profissionais qualificados, aquelas pessoas que se qualificaram ficam mais valorizadas e em situação privilegiada.

É o caso de Ana Paula Castro, ex-coordenadora de atendimento ao cliente de um shopping, que, no ano passado, ingressou em um curso de formação de tecnólogo em Recursos Humanos. “Em seis meses, fui contratada pela Nextel, onde sou responsável pelo setor administrativo da filial de Belo Horizonte”, afirmou. Otimista, Ana Paula já pensa em uma nova qualificação em 2010, uma vez que o curso na Faculdade de Tecnologia do Comércio (Fatec) da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH) será concluído no final deste ano.

“Primeiro, penso em fazer algum curso que trate da questão do Direito na área de Recursos Humanos. Depois, penso em fazer uma pós-graduação no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) em Gestão de Recursos Humanos”, planeja Ana Paula. E a estruturação de uma carreira, com cursos que tenham relação não só com a atividade desenvolvida, mas também com os objetivos estabelecidos para o futuro, é justamente o conselho de especialistas em mercado de trabalho.

Para o gerente da Faculdade de Tecnologia do Comércio (Fatec), Alexandre França, a qualificação profissional precisar ser continuada. E deve começar antes mesmo do curso superior. Se a pessoa pretende cursar engenharia elétrica, por exemplo, já pode ingressar, no ensino médio, em um curso que ofereça também a qualificação técnica em eletricidade. E, no futuro, depois de concluir o superior, ao pensar em uma pós-graduação, deve apostar em um curso na mesma área, mas que agregue novos conhecimentos.

“O sucesso profissional depende de a pessoa fazer o que gosta, mas principalmente de ela ficar atenta sobre para onde o mercado está indo. É preciso buscar informações sobre o futuro previsto para a profissão, para que essa pessoa possa acompanhar esse avanço, que hoje acontece muito rápido”, aconselha Alexandre. O gerente da Fatec ainda avalia que o retorno que um curso de qualificação vai possibilitar é diretamente proporcional ao tempo de duração desse curso e, consequentemente, do que é aprendido. Ou seja, não adianta fazer um curso de curta duração e esperar uma guinada na carreira profissional.

Mas, para aqueles que estão desempregados e buscam uma oportunidade de reinserção, o gerente da Fatec recomenda os cursos de curta duração, que possibilitam uma rede de relacionamentos com pessoas que estão no mercado e que podem ajudar na recolocação. Mas aqui, mais uma vez, é preciso optar por um curso que tenha relação com a carreira e com o cargo almejado. O coordenador do grupo de trabalho e renda do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Roberto Gonzalles, é taxativo ao afirmar que a busca por qualificação ou requalificação, sozinha, não garante emprego. “O que aumenta as chances de emprego é uma formação dentro das oportunidades existentes no mercado”, explica.

Outro fator que valoriza a qualificação é o fato de a força de trabalho brasileira estar mais escolarizada. Segundo o Ipea, hoje, mais da metade da População Economicamente Ativa (PEA) das regiões metropolitanas brasileiras tem 11 anos ou mais de formação escolar.

Se o problema da falta de qualificação já preocupa a indústria, nos próximos meses a tendência é essa questão se agravar, uma vez que o setor assumiu, em setembro, justamente o posto de maior gerador de empregos no Brasil. No mês de setembro, foram criados no Brasil 252.617 empregos com carteira assinada. A Indústria de Transformação gerou, sozinha, 123.318 empregos formais, desempenho recorde para toda a série histórica do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego do Ministério do Trabalho (Caged).

O bom desempenho da Indústria de Transformação foi ditado pela expansão generalizada, pela primeira vez no ano, em seus 12 ramos de atividade, com destaque para as Indústrias de Produtos Alimentícios (62.732 postos de trabalho), Têxtil (10.502), Metalúrgica (8.069) e Mecânica (6.156). As indústrias de Calçados (8.893), Química (7.908), Material de Transporte (4.441) e de Produtos Minerais Não Metálicos (3.369) também tiveram desempenho recorde.

“A indústria desempregou muito no final do ano passado e no início deste ano. Agora, está recontratando. Até em função das vendas de final de ano, que estão em um nível alto”, avalia Roberto Gonzalles, do Ipea.

Em Minas Gerais, em setembro, a Indústria de Transformação gerou 10.138 empregos formais, contra 7.937 empregos gerados pelo Comércio, 7.118 pelo setor de Serviços e 6.081 empregos gerados pela Construção Civil.

O gerente de Educação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em Minas, Edmar Alcântara, acredita que esse bom momento da indústria na geração de emprego abre oportunidades para quem investiu na qualificação profissional, uma vez que o setor tem aumentado a exigência de qualificação de seus funcionários, também em função do avanço da tecnologia nos processos produtivos. E, sem opção, estão sendo obrigadas a qualificar, por conta própria, pessoas para ocupar as vagas disponíveis.

“Na verdade, existe uma falta de qualificação generalizada. Se você pegar hoje quem está no mercado de trabalho, a grande maioria aprendeu na prática”, afirma Alcântara.


O Senai, segundo Alcân-tara, possui hoje 12 mil vagas gratuitas para pessoas que quiserem se qualificar na área da construção civil, mas não consegue candidatos aos cursos.

 

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