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Indústria deve manter expansão em ritmo mais lento

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Hoje em Dia - Economia

09/08/2009

 

Luciana Rezende

Repórter


Apesar da expectativa de um ritmo de crescimento menor para a indústria mineira no segundo semestre do ano, na comparação com o primeiro, as previsões para o Natal de 2009 continuam bastante positivas. A produção deve expandir para atender ao acréscimo da demanda no período. Consequentemente, os tradicionais empregos temporários estariam assegurados. “Haverá crescimento e contratações”, avalia o administrador público Pedro Henrique da Silva Castro, pesquisador do Centro de Estatística e Informação (CEI) da Fundação João Pinheiro (FJP) e responsável pela análise do setor industrial para a elaboração do Produto Interno Bruto (PIB) de Minas Gerais.Ele argumenta, no entanto, que a boa recuperação não será suficiente para a indústria fechar 2009 no azul. Muito menos, retomar os patamares de produção e faturamento alcançados no ano passado, antes de a crise financeira internacional estourar, em setembro. “O final de 2007 e início de 2008 foram períodos de crescimento muito elevado. Isso está ligado, principalmente, a uma conjuntura internacional extremamente favorável. Retomar aqueles números será bastante complicado no cenário atual”, comenta Castro, na entrevista abaixo.

 

A produção industrial mineira registrou queda de 21,3% no primeiro semestre na comparação com mesmo período de 2008. Ao mesmo tempo, a atividade registra alta de 18,9% entre dezembro e junho deste ano. A situação do setor está melhorando?

No Brasil inteiro, houve uma queda muito forte na produção industrial depois da crise. A indústria acabou sendo o setor que mais sentiu. E a retração foi maior em Minas Gerais, em função da estrutura produtiva mineira. O Estado concentra a produção em artigos que são mais afetados em crises desse tipo. São os bens duráveis, como automóveis e eletrodomésticos. As famílias sentem apreensão em relação ao futuro e diminuem o consumo. Também boa parte dos carros são exportados, o que ficou comprometido, assim como o minério de ferro. O produto sofreu com a queda da exportação e também por ser destinado à produção de aço. Ou seja, usado na indústria automotiva e na construção, setores que estiveram em queda. O mesmo ocorreu com a metalurgia, que produz insumos para esses setores. A concentração da produção mineira nessas atividades fez com que a indústria local apresentasse um resultado pior. A queda no Estado foi muito maior que a queda no Brasil, justamente por causa dessa concentração. Agora se observa esse resultado melhor desde dezembro. O que explica isso são basicamente os mesmos fatores que explicam a maior queda. Os setores que tiveram uma retração muito forte estavam com uma grande capacidade ociosa. À medida que o pior da crise vai ficando para trás, acabam tendo um espaço maior para crescer. Os números mostram dois lados da mesma moeda.

Quanto tempo a indústria mineira deve demorar para recuperar as perdas acumuladas desde o pico da crise financeira?

A recuperação tem sido extremamente favorável, mas é difícil falar. Se a indústria mineira continuar crescendo em relação ao mês anterior na mesma velocidade que cresceu desde dezembro de 2008 poderia recuperar no segundo semestre. Em dezembro deste ano, chegaria ao mesmo nível que estava em outubro do ano passado.Mas não é uma hipótese boa. A indústria não deve manter esse ritmo. O mais provável é que, à medida que ela reduza esse hiato entre a capacidade instalada e a que ela está realmente usando, ou seja, a capacidade ociosa for diminuindo, a velocidade de recuperação também caia. No segundo semestre, o provável é que a indústria desacelere, embora continue crescendo. No entanto, na comparação com o mesmo mês do ano anterior, somente deve haver taxa positiva a partir de outubro. Isso porque vamos chegar à base fraca, posterior à crise financeira.

E retomar os níveis alcançados no primeiro semestre de 2008? Isso deve demorar mais?

Isso deve demorar bem mais. O final de 2007 e início de 2008 foram períodos de crescimento muito elevado. Realmente tínhamos uma taxa de crescimento industrial que até excede o que se esperaria para o Brasil em condições normais, dado a nossa infraestrutura, que ainda é precária, e fatores institucionais, como a burocracia para os investidores. O crescimento muito elevado esteve ligado a uma conjuntura internacional extremamente favorável. O Brasil surfou nessa onda, o que explica parte do seu crescimento fenomenal e de Minas, particularmente. A indústria mineira cresceu em níveis ainda mais elevados. Retomar aqueles números será bastante complicado num cenário internacional que não favorece. No mundo todo, havia uma farra de consumo, aumentando demais a demanda por produtos. É natural que haja um ajuste para baixo, um pé no chão maior, com as taxas de crescimento no mundo inteiro mais lentas. Além disso, com certeza não haverá crédito tão farto para quem quer investir ou consumir nos próximos anos.

Apesar de lenta, a recuperação da indústria mineira está acima da nacional? Existe outro motivo que explique isso, além de o Estado ter perdido anteriormente?

Acredito que seja realmente essa questão da estrutura do Estado. Claro que isso não é tudo, mas explica grande parte. Quando avaliamos os gráficos de redução da produção entre setembro e dezembro de 2008 e os do crescimento observado depois, percebemos justamente isso: em média, os estados que tiveram o pior resultado no final do ano passado são os que apresentam um melhor desempenho agora. Saber outros fatores exigiria um estudo mais detalhado. Porém estará relacionado, com certeza, à demanda pelos produtos. Nem todos os países retornaram ao nível do ano anterior.

No Brasil setores como o automotivo, construção civil e linha branca se beneficiaram da redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Eles manterão o fôlego quando acabar esse benefício?

Quando cessarem os benefícios, é possível que a economia já esteja em uma fase melhor. Mas certamente esses setores sofrerão um efeito negativo, porque são de bens de consumo duráveis. Então as pessoas que tinham interesse de comprar um carro já aproveitaram o IPI reduzido para fazê-lo, por exemplo. Portanto, devem demorar um tempo até trocarem de novo seu veículo. O governo, evidentemente, sabe desse efeito. Queria era contrabalançar um pouco o receio das famílias em gastar com esse tipo de bem no momento pior da crise. Foi uma troca entre o consumo presente e futuro desses bens. A curva de produção caiu menos, mas não subirá tanto depois. A isenção do IPI contrabalançou a economia em queda no início do ano. Agora ocorrerá o contrário: a elevação da alíquota será contrabalançada pelo melhor desempenho da economia.

Quais são então as perspectivas para o Natal? As indústrias vão expandir a produção e contratar temporários neste ano, como acontece tradicionalmente?

Imagino que haverá crescimento e contratações. Já observamos uma alta da produção e, de fato, os níveis de emprego ainda não estão acompanhando. Essa retomada é mesmo um pouco mais lenta. [TEXTO]Há custos trabalhistas em demitir e contratar. O empresário não toma essa decisão muito rapidamente. Quer confirmar se a recuperação está consolidada.[/TEXTO] Porém já temos quase um ano inteiro praticamente de retomada da indústria. Por isso o nível de emprego será ampliado para atender as encomendas para o Natal. Essa característica sazonal do emprego provavelmente irá se manter.

Algum fator pode comprometer essas perspectivas, como o dólar em queda ou uma alta de juros?

O dólar é um fator que atrapalha exportadores e indústrias que competem com produtos importados, como a têxtil. Os itens trazidos de fora ficam mais baratos em relação aos nacionais. E pode haver um crescimento dessas importações. No entanto, apesar da gritaria de muitos empresários, não acredito que seja um fator que vá inviabilizar a recuperação. O real valorizado, inclusive, é reflexo das condições da economia brasileira, que tem mostrado uma evolução favorável. Já a taxa de juros, que vinha caindo, terá um efeito maior agora, porque sempre há uma defasagem até a queda chegar ao mercado. Em contrapartida, o Banco Central (BC) deverá parar com o corte. Estabilizar e começar a aumentar, não sei a partir de quando. Os dados de juros futuros mostram que o mercado espera isso do BC. No entanto, essa postura não afetará o segundo semestre.

Qual é a expectativa para o PIB (Produto Interno Bruto) de Minas neste ano e qual será a contribuição da indústria no indicador?

Aqui na Fundação, calculamos o PIB em relação ao ano anterior. Ainda não há o dado sazonal. Caso houvesse essa avaliação mês a mês, haveria melhora. Então, como 2008 foi um ano muito positivo, teremos resultados ruins até o terceiro trimestre de 2009. O desempenho do PIB vai ser negativo, não sabemos em quanto. Não há como fugir disso. O quarto trimestre sozinho não será capaz de compensar as quedas anteriores. Ainda há incertezas, mas o Brasil deve fechar o ano com PIB negativo, e Minas um pouco mais negativo. Porque o ano passado, para Minas, foi melhor que para o Brasil. O Estado cresceu mais e também foi mais afetado pela crise. Já a indústria certamente será a maior responsável pela retração do PIB.

 

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