09/08/2009
Cerca de 290 mil moradores da Grande Belo Horizonte estão desempregados, segundo a Fundação João Pinheiro (FJP) e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). A fila para a compra da casa própria pelo programa Minha casa, minha vida ultrapassa os 230 mil somente na capital mineira, de acordo com associações pró-moradia. A taxa de juros do crédito para empresas chega a 8,57% ao mês, conforme dados do Banco Central. Para desatar esses e outros nós, a sociedade toma a dianteira, encontra soluções e dá exemplo para todo o país.
João Vitor Souza, dono do Supermercado e Padaria JJ, no Bairro das Indústrias (Região Barreiro), se uniu a outros colegas do comércio local para formar uma espécie de consórcio e driblar o alto custo do crédito. A crise fez com que os bancos se tornassem ainda mais seletivos, reduzindo o número de empréstimos e aumentando a taxa de juros. O grupo, entretanto, não precisa tanto mais do sistema financeiro. Cada integrante deposita R$ 300 por mês na “caixinha”, administrada por uma das empresárias do grupo. Dessa forma, todo mês um comerciante leva a bolada de R$ 3 mil. “Não pagamos taxas nem juros. Além disso, fugimos de toda a burocracia existente para levantar capital nos bancos. Juntar dinheiro para investimento não é fácil. Assim, essa poupança forçada resolve o nosso problema”, explica João.
Maria Idelma Bisinotto Tomas se envolveu em um projeto maior, muito maior. Hoje lidera a Cooperativa Habitacional Metropolitana (Cohabita), que chegou a reunir cerca de mil famílias que participavam em Belo Horizonte de movimentos pró-moradia nos anos 1990. O objetivo, ou melhor, o sonho de todos é a casa própria. As famílias, muito humildes, se juntaram e ganharam força para comprar glebas, o equivalente a cerca de 500 pequenos lotes, no Bairro Jardim Vitória, na Região Nordeste, na divisa com Sabará. Para comprar o terreno, há 10 anos, assumiram uma dívida de R$ 1,7 milhão. Os cooperados pagaram, naquela época, R$ 75 pela cota e prestações de R$ 85. No fim da década, apresentaram projeto para o Orçamento Participativo (OP) da Prefeitura de BH e conseguiram R$ 1,5 milhão em urbanização.
O pedreiro Joaquim Gonçalves Ferreira, o senhor Sasá, é um dos primeiros cooperados a erguer paredes. No fundo do lote construiu uma singela casa, com quarto, banheiro, sala e cozinha. “Eu morava no Aglomerado da Serra. Só tinha beco. Estou achando essas ruas uma maravilha. Vou até receber escritura do lote”, comemora. E as ideias são muitas. “Na frente aqui do lote vou construir uma mercearia para mim e meu filho. Vamos ganhar dinheiro quando tudo isso aqui estiver cheio de casas”, conta.
Para o terreno ganhar forma de bairro falta dinheiro, conforme explica a cooperada Ednéia Aparecida de Souza, uma das pessoas que tocam o projeto com garra. “Inscrevemos o projeto da construção de 500 apartamentos e 380 casas em programas do governo federal, especialmente no Ministério das Cidades, que aprovou recursos de R$ 32 milhões. Estamos ansiosos para a liberação do dinheiro ainda este ano. Mas, mesmo assim, teremos que continuar contribuindo para quitar o terreno.” Ednéia morou a vida inteira de aluguel. Foi uma das primeiras ocupantes do Taquaril (Região Leste), no início dos anos 1980.
A sociedade também faz a sua parte quando o assunto é trabalho. A designer mineira Nádia Perini mudou-se para Brasília e, quando voltou para a terra natal, se deparou com uma nova realidade. “O mercado foi tomado pela meninada. Sem emprego, a alternativa foi voltar ao artesanato, ao qual me dedicava quando jovem, ao integrar a Feira Hippie, ainda na Praça da Liberdade”, disse. Há cinco anos se encontrou com uma amiga que passava pelo mesmo problema. Daí, surgiu a ideia de criar a Mercadoras da Arte.
“Procuramos outras mulheres em nossa situação e que faziam um belo trabalho. De dois anos para cá pegamos pelo chifre e investimos no diferencial. Alugamos um ateliê e fizemos um showroom para expor as peças. Também fazemos exposições, como no Mercado do Cruzeiro. Hoje, o artesanato garante o sustento da maior parte das 15 participantes”, explica.



